Wednesday, November 11, 2009

Girl talk, o esdrúxulo

Existem assuntos tão esdrúxulos quando se trata de sexo entre seres humanos que era melhor ter nascido cachorro. Com meus anos de participação em mesas de bar femininas e morando com uma amiga, resolvi dividir os meus pensamentos - e os de outras - sobre uma questão bastante esdrúxula: menstruação.

Situação: você sai com um rapaz todo fim de semana e, independente do programa, ele sempre termina na cama. Daí que certo dia, como cedo ou tarde teria que acontecer, você está menstruada justo no dia em que combinaram um cinema. Imaginemos que o rapaz te pergunta "e depois do filme vamos jantar lá em casa?". É evidente a intenção, o jantar não passa de uma preliminar e você sabe disso. Vamos sim, mas te aviso que estou menstruada? Ao dizer isso você está o que? Assinando uma declaração de que a isso se resume a sua relação? Melhor então ir jantar e dar a notícia quando o rapaz vier de chamego?

- Mas se eu avisar quando ele me beijar estarei sendo muito precipitada e se eu avisar num momento já caliente ele vai me olhar com uma cara de pra que que eu deixei ele ficar com o pau duro - observa a amiga colombiana, aflita sem saber onde fica a linha limite

- É como saber onde é a linha limite quando não rola sexo. Até onde eu posso aproveitar sem transar, sem que se torne ridículo? - questiona a outra - Não tenho mais idade pra roçar de roupa - completa.

Parece tudo uma bobagem porque, afinal de contas, todo mundo menstrua mesmo e pessoas que trepam tem intimidade. Mas é ESDRÚXULO! Tá legal que muita gente nem se importa, que há quem até goste e tal, mas que é uma notícia esdrúxula quando há certo limite de intimidade, é.

Saturday, October 17, 2009

a menina que pulava os meios

Oito meses já haviam se passado quando Flora resolveu sair do luto de uma relação que morreu aos poucos, com o sofrimento necessário só para seguir respirando.
Conheceu Jorge e teve um daqueles encontros que nem na maior das expectativas imaginamos que vá ser tão bom. Surpreendente, dose certa de álcool e mais risadas que ela esperava que ele pudesse proporcionar, que alguém ainda pudesse. Ele a deixou em casa depois de uma caminhada que beirava a perfeição e se despediu com um beijo quase melhor.
Ele telefonou 3 dias depois... ela já imaginava que iria.

- Jorge, eu adoraria sair com você, mas acho melhor a gente parar por aqui.
- Mas por que?
- Porque foi tudo muito bom. Quase perfeito, eu diria. E eu já vejo onde isso pode dar. A gente vai começar a sair, a se envolver e vamos acabar nos apaixonando. Aí a gente vai namorar e dizer que nos amamos, e vamos nos amar mesmo, loucamente, talvez até casar... se der tempo. Mas mais cedo ou mais tarde, antes ou depois desse casório, você vai começar a detestar minha mania de checar se tenho cabelos brancos antes de dormir. E depois de um tempo eu não vou suportar que você durma de meias. Você vai descobrir que eu não gosto de verdade daquela banda indie que você adora, mas que falei aquilo só pra te agradar. Vai ver você também falou algo só pra me agradar, sei lá... o que importa é que vamos descobrir coisas que nos desagradam. Não sei... você pode sentir tesão por outra mulher ou pior, se apaixonar. Não posso te explicar o que, mas sei que alguma coisa vai dar errada e a gente vai acabar terminando. Alguém vai sair mal disso, e é bem capaz de ser eu. Não é nada pessoal, sabe. Eu gostei de você mesmo. Só quero evitar a troca de ofensas, as mágoas e lágrimas que nosso término poderia causar. Acho melhor pararmos por aqui, porque assim a gente pula todas as brigas, todo o sofrimento, e chegamos intactos ao fim.

Sunday, September 13, 2009

"I'm brave but I'm chicken shit"

Eu sempre volto das minhas férias do Rio feliz. Sempre pronta pra mais uma temporada surpreendente em Buenos Aires. Dessa vez eu estava com medo.

Estava com medo porque eu sabia que era a última. Estava com medo porque se eu voltasse pra cá eu teria que, enfim, ir embora de vez. E eu não quero ir embora de vez, eu não quero deixar pra trás tudo o que eu aprendi a amar nessa cidade e a vida que eu levo aqui. Eu não quero voltar para o momento das dúvidas e ansiedades. Aqui é tudo tão mais seguro e meu. Aqui é onde eu se o que estou fazendo - é o que eu sinto na maior parte do tempo, mesmo quando eu não sei.

Mas o que eu tô sentindo agora não é uma vontade de que essa temporada dure pra sempre, para que eu possa aproveitar cada minuto. Eu sinto é como se eu nem estivesse aqui. E tampouco estou no Rio. Eu já não sou quem eu era e não tenho idéia do que serei, mas não consigo focar no que estou sendo. Eu só consigo pensar Buenos Aires foi a melhor coisa que eu já vivi e agora me restaram preocupações, um milhão de coisas que eu ainda quero aprender, livros que eu quero ler, pratos para cozinhar... e não resta tempo.

Eu não posso ficar, porque outros passos precisam ser dados - passos que eu quero dar. Mas como é que eu vou embora para um país que ainda não aceita o que eu estou fazendo aqui? Como é que eu vou encarar o fato de que meu mestrado ainda não é válido e não será enquanto outras 22 pessoas não tiverem suas teses aprovadas? Como é que eu posso só ter descoberto isso depois de 2 anos? Como?

Não que isso desvalorize o que foram esses dois anos pra mim - o que eu aprendi aqui não existe ministério da educação que possa me convencer que não valeu. Tudo o que eu vivi aqui é mais que o suficiente para me certificar de que esse mestrado tem validade, mas não diminui a angustia.

Saturday, September 12, 2009

conto sobre ponto

Não era por nada que ele não pontuava seus textos.
Não existia exclamação em suas saudades e suas perguntas, sem interrogação, não demandavam resposta.
Mas ela respondia.
E exclamava.
Esperando por reticências...

ou por um ponto final.

Thursday, September 10, 2009

não há relação sexual

Não há relação sexual. Foi Lacan quem disse, não fui eu. Há ato, claro, mas relação não há. É o que nosso Freud colombiano repete quando uma das amigas discute com o namorado. Não há relação sexual, então por que seguir discutindo quando você fala x e ele entende y? Arrisca do mal-entendido criar ainda mais motivos para briga.

Tá. Não dá também pra pensar que nada do que o rapaz fala a moça entende e vice-versa porque pode ser o caminho da indiferença, e aí não há relação nenhuma. Mas se a gente respirar e pensar que o idioma do par é outro e, por mais que a gente fale devagarinho, algo tende a se perder pelo caminho - e no caso do ouvido femenino, algo que nunca foi dito tende a se encontrar -, muitos desentendimentos poderiam ser encurtados.

E por mais que as coisas sejam assim desde antes de cristo, homens cismam em ainda não entender que quando a gente diz que não precisa estamos querendo dizer que a gente quer que ele faça mesmo sem precisar - não entendem ou acham mais confortável acreditar no dito -, e mulheres cismam em pensar que caras emburradas tem sempre a ver com elas, e enchem a porra do saco perguntando até que realmente tem a ver com ela, que é uma chata insuportável umbigóide - mesmo quando o time dele acaba de perder a libertadores!

Não há relação sexual. Ele não tá buscando em você a mesma coisa que você está buscando nele. Vocês não se amam e se desejam da mesma forma, com os mesmos códigos e não existe ninguém que te complemente. É isso, ninguém complementa ninguém e o fato de homens e mulheres se relacionarem é quase um milagre. Logo, a gente deveria agradecer o milagre e trabalhar a serenidade.

virei fã

Tuesday, September 08, 2009

Thursday, September 03, 2009

atos estúpidos, conseqüências desagradáveis

Férias de inverno prolongadas pela gripe suína, resolvo passar uma semana em São Paulo - para não encontrar meu pai só nos fins de semana. Tudo muito agradável, resolvemos degustar vinhos. Delícia de evento, provei cerca de 15 vinhos. Hora de ir pra casa.

Chegando em casa já com o teor alcóolico elevado, o estômago clama por ajuda e minha mãe resolve fazer uma sopa. Fui para a cozinha animadíssima checar os ingredientes: all vegetables, good. Eu nem imaginava que minha mãe tinha planos maléficos que se aproveitavam da minha confiança. Começo a tomar a sopa e o que percebo? O sabor de carne reinava ali - essa senhora que meu pariu resolveu ignorar que há 4 anos eu não sou comedora de mamíferos e aves, esperou que eu me afastasse da cozinha e tacou carne na sopa. E o melhor, achou que eu não fosse notar!

O vinho foi subindo junto com a raiva, respirei fundo e resolvi não brigar. Peguei minha bolsa e fui dar uma volta. Se no Rio de Janeiro eu estivesse teria escolhido brigar, porque todo mundo sabe que meia-noite não é hora de andar sozinha nem em Ipanema. Pois é, descobri que em Higienopolis também não - decisão cretina a minha.

Já na rua, lembro que a fome permanece ali. "O que faço sozinha nessa cidade que não é a minha? Já sei! Vou pegar um táxi e ir pra tal galeria dos pães... queria mesmo conhecer". Não sei se esperei muito tempo, mas sei que não passava táxi, então me lembrei de um japa que tinha ali por perto... eu não sabia bem onde, mas sabia que era na rua bahia. Lá fui eu subir ladeira de salto alto. Cheguei na rua bahia, entrei pra esquerda e me deparei com uma rua deserta e um cara suspeito se aproximando. Não deu outra...

- me dá a bolsa, me dá a bolsa!

O cretino dizia enquanto puxava minha bolsinha de couro preta com tachas que eu havia recém comprado em Buenos Aires. O vinho me fez perder qualquer senso e decidi que não entregaria minha bolsa amada de nenhuma maneira - sim, eu sei que eu podia ter perdido minha vida e tal, mas eu tinha provado mais de 15 vinhos sem comer praticamente nada e sou mignon -, a não ser que ele me apontasse uma arma de fogo ou qualquer objeto cortante, ainda que fosse uma faca de manteiga. Tentei fazê-lo pôr a mão na consciência, segurei firme a bolsa contra o peito com as duas mãos, e lá veio um soco na minha cara - what???

Foi aí que eu tive certeza, se aquele homem tinha acabado de socar a minha cara, ele não tinha nem um alicate de unha para me ferir! Abri a boca a gritar o mais alto que eu pude:

- SOCOOOOORROOOOOOOO! AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!

POFT! Segundo soco no meio da minha cara, ordinário! Senti um gostinho de sangue por dentro da bochecha, mas nada que eu não tivesse sentido pior nas aulas de boxe. Continuei gritando, até levar o terceiro, me desequilibrar - vamos combinar que eu estava bêbada e de salto - e ir de bunda no chão, sem soltar a bolsa - of course. Daí que sai um porteiro do prédio da esquina e chega um homem de moto, o ladrão sai correndo e me xingando de filha da puta, e eu desando a chorar. Fiquei um tempo no chão, agarrana na bolsa e chorando, até que os meus salvadores me convenceram a subir na moto que me levaria pra casa. Acha que acabou?

No caminho de casa, uma blitz:

- Por que ela não está de capacete? - pergunta a policial ao motoqueiro salvador.

Aí eu saio da moto e desando a chorar outra vez, explicando que o rapaz acabara de me salvar de um ataque. A mulher pede que eu conte a história para o outro policial, que no final do meu relato pergunta:

- Você bebeu um pouco, né?

OI? Ele realmente tava me perguntando isso? O que ele queria dizer com isso? Que eu alucinei a cena? Que eu mereci por uso exagerado de bebida alcóolica? Eu estava dirigindo por acaso?

- Bebi sim. Fui à uma degustação de vinho com meus pais, resolvi dar uma volta na rua e levei três socos na cara de um homem que queria levar minha bolsa. Eu ter tomado os vinhos antes muda o fato deu ter apanhado depois?

- Não, desculpe-me.

Tremendo de raiva do policial, do ladrão e da minha mãe que seria capaz de dizer que eu não devia ter saído, liguei para o meu irmão, que estava em algum lugar daquela cidade imensa. Ele não me deu a menor bola e mandou eu ir pra casa. No way. Peguei o telefone e liguei para um amigo paulista, chorando, sem me dar conta de que horar eram - eu não me dava conta nem do meu nome mais. Meu amigo me socorreu e me levou para um posto de gasolina onde eu pude me acalmar com uma cerveja e desabafar minha tragédia.

A falta de qualquer roxo no meu rosto confirmou minha opinião de que o rapaz estava tão drogado que não tinha forças para roubar uma moça insana como eu.